O corpo desponta a cada movimento. O eixo que rege, flexível, volta a organizar cada investida devolvendo-lhe a salutar integridade. Sossegado, em suspenso, perplexo. Assim latente e inscrito no silêncio o muito breve e próximo acometimento. Irrompe, pois, de novo. Afastado do eixo severo, procura-o agora, na medida do possível, em pequenos idílios, remediando-se aqui, ali, em desenvolturas adocicadas anuídas pelo consentimento do todo. Tem em si a energia estúpida e latente de se refazer e recriar como uma norma que irradiasse a toda a sua volta e rejuvenescesse em objectos.
O corpo faz o objecto à sua imagem. O objecto recria, assim, o corpo. Aquele adquire estatuto próprio e liberta-se. Compreende-se que se reclame pelos objectos.O desequilíbrio anseia pelo equilíbrio. Normalmente exige-se a velocidade, o movimento.
Os opostos refrescam-se em si mesmos. O equilíbrio espreita a oportunidade doida e perversa de se perder de novo em transtornos e de novo se compor. Nada se cria, tudo se transforma: o ruído saudável do diverso.
O equilíbrio pode ter a aparência do silêncio, da quietude, e, no entanto, dentro de si mora uma multiplicidade de desproporções, discrepâncias e desarmonias que, entrosadas, se equilibram de forma mais encantadora e inteligente.
O movimento está assim aprisionado, e assim é que ele mostra a sua excelência. Assim no corpo. Assim na arte. Assim na Vida. Podia tudo estar imóvel e resolvido para sempre, mas compor é mesmo isso.
Rui Tavares (Texto do catálogo da exposição “Declining Symmetries”)